Wednesday, February 4, 2009

A propaganda é a "ama" do negócio



O "niu" year (niu牛 em chinês significa vaca, e na gíria é usado para designar alguém que é bom no que faz) por aqui começou cheio de graça.
A começar pela dualidade que envolve o niu e o ano novo.

A abordagem do Happy "Niu" (New) Year poderia limitar-se apenas ao âmbito da fofurice fonética se não fosse a feliz coincidência vinda em momento super oportuno.
Explorar a vaca e seus derivados no ano que lhes pertence, logo após os escânadalos envolvendo a contaminação do leite por melamina.
Melamina é um composto cristalino utilizado na fabricação de resinas sintéticas. A substância acrescentada no leite disfarça a diluição em água e eleva o nível de proteína da bebida. Com este fim, a melamina foi ilegalmente adicionada e provocou a morte de 6 bebês e intoxicou pelo menos outras 300 mil crianças na China.

O escândalo abalou alicerces importantes.
Em âmbito internacional, a credibilidade dos produtos chineses em momento crucial pré-olímpico da pseudo-perfeição.
Na esfera nacional, o colpaso do mercado interno consumidor de leite após anos de esforços concentrados, que contou inclusive com apoio do governo, na campanha para aumento do consumo lácteo per capita.

A preocupação é válida, especialmente diante dos números:

-A produção total de leite em 2007 chegou a 36,334 milhões de toneladas, 10% superior à registrada em 2006.

- O consumo per capita chinês de leite em 2003 era de 10 milhões de toneladas, em 2008 saltou para 15 milhões de toneladas.

A conjunção dos fatores nacionais e internacionais levou o governo chinês a condenar com pena de morte quatro altos executivos envolvidos no escândalo. Além da iniciativa inédita de enviar por mensagem de celular na noite do Ano Novo Chinês, a seguinte nota:
" We are deeply sorry for the harm we have brought to children and to society. We offer our sincere apology and plead for forgiveness".

Os dados sobre os estragos causados pelo escândalo, em termos de redução do consumo ainda não foram divulgados.
A considerar pela criatividade e apelo das propagandas, em especial as de apelo infantil eu ousaria dizer que a salubridade do setor teme baixas de resistência ainda maiores.



















:: Em tempo ::

Anunciado hoje, 12 de fevereiro, a falência do Grupo Sanlu, companhia de laticínios envolvida no escândalo da contaminação de leite com melamina. Os bens da empresa irão a leilão e as propostas de restituição estão sendo elaboradas.
O Grupo Sanlu era um famoso produtor de laticínios. O valor da marca estava cotado em 14,9 bilhões de yuans

Monday, February 2, 2009

Só no sapatinho















Quem imaginaria que a recuperação do setor calçadista viria justamente em momento de crise financeira global?
Poucos. Nem a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados ( o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking dos maiores produtores mundiais de calçados e também de couros) arriscou um pronunciamento antes do Carnaval. Prefere avaliar as perspectivas para 2009 depois das primeiras negociações do ano, por conta das indefinições de câmbio.
As variações mantendo-se em níveis realistas leva ao crescimento das exportações na segunda metade do ano.

As transformações do cenário contudo seguem outro ritmo, especialmente quando o grande player, a China, está em ação.
Ironia do destino, foi pelas mãos ( na verdade milhares delas, que compõe a mão-de-obra barata) chinesas que o Brasil há mais de uma década perdeu poder competitivo no setor. E é pelos passos do primeiro-ministro chinês Wen Jiabao em vista à Londres que o mesmo segue tedência iraquiana aparecendo em lugar de destaque ( menos na mídia chinesa) durante discurso proferido na Universidade de Cambridge.

Engana-se quem pressupõe que o ministro dedicou sua visita para tratar de questões concernentes ao setor calçadista. Mesmo sem qualquer menção, é inquestionável a importância que sapatos e tênis adquiriram, em especial no último semestre na expansão da propagação não convencional do utilitário.
Nem mesmo os mais visionários e fashionistas cogitaram a importância que eles exerceriam não apenas no cenário da moda.

O vídeo do youtube mostra momento "só no sapatinho" contra o premiê chinês, que entra com muito glamour para a galeria internacional dos alvos da sapatada.


O nicho de mercado está criado, a confecção de possantes que além de atender os requisitos do conforto e da moda possam ainda fulgurar nas Sapatadas com elegância, despojamento e atitude.

Em pensar que todo este sapateado pré-Carnavalesco aconteceu em terras que nem tradição pelo samba nem pela festa pagã possuem.

:: Em tempo::

- Portugal foi o único país europeu com um saldo comercial positivo no setor de calçados, com índice de exportação superior a 90% da produção para os mercados da Europa.
Segundo a APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos), nas últimas décadas a participação da Ásia na produção mundial aumentou para mais de 80% e o peso do continente no consumo subiu também significativamente, para 43%. Em contrapartida, os mercados asiáticos não se abriram nas mesmas proporções às empresas estrangeiras.

-Apesar do Brasil fechar o ano de 2008 com exportações abaixo do esperado - US$ 1,881 bilhão, redução de 2% em relação a 2007.
O setor calçadista brasileiro terá R$ 52,3 milhões para utilizar até maio de 2010 em ações de promoção comercial dentro do Programa Setorial Integrado de Promoção às Exportações de Calçados. O convênio, foi assinado pelos presidentes da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
E tem como objetivo principal ampliar a participação do calçado brasileiro no mundo, expandindo a base exportadora e abrindo novos mercados de destino. Além disso,o Brazilian Footwear (BF) visa consolidar a venda nos países já conquistados, aumentando as exportações de calçados com valor agregado.
Mercados-alvo: foram escolhidos dez mercados alvos e a meta é a ampliar as exportações para esses países: Alemanha, China, Colômbia, Emirados Árabes, Espanha, Estados Unidos, França, Hong Kong, Itália e Reino Unido.

Thursday, January 29, 2009

Por água abaixo



Segundo o último relatório do Banco Mundial, a China precisa reformular e reforçar a gestão de seus recursos hídricos.
A pesquisa sugere atenção especial em relação a transparência das regras nas relações entre governo, mercado e sociedade, melhorias quanto a eficiência e a eficácia da gestão das instituições hídricas, regulamentação dos preços para mecanismos de compensação ecológica, e o reforço da aplicação e controle da poluição hídrica bem como a conscientização e a preparação para emergências causadas pela poluição da água.

O anúncio não é exatamente uma novidade, de novo concentra-se a mobilização do governo chinês pela causa.
Em notícia divulgada no início desta semana, a mídia estatal publicou o plano do governo que deve contemplar 60 milhões de pessoas em 2009 com o fornecimento de água "limpa".
No mundo das sutilezas chinesas não ficou claro para mim se a menção diz respeito a água potável ou água não contaminada. Já que 5.464 quilômetros por onde percorrem as águas do berço da civilização chinesa, o rio Amarelo, responsável pelo abastecimento de mais de 155 milhões de pessoas e 15% das plantações, o nível de poluição das águas é de 66%.
Ou seja, mais de 200 milhões de chineses não tem acesso a água potável, número bastante inferior se comparado a conjuntura de 9 anos atrás onde o país registrava 379 milhões de pessoas.

O grande vilão deste cenário de devastação e poluição é atribuído ao rápido crescimento econômico.
E a grande surpresa provocada pelas propostas do Banco Mundial diz respeito ao apelo do organismo internacional frente ao governo chinês para que aumente o preço da água como medida para inibir o consumo e promover maior eficiência na tentativa de evitar uma grave crise provocada pela escassez da água.

Surpresa porque me parece demasiado simplista e pouco includente propor aumento no preço da água num cenário onde mais de 200 milhões de chineses nem acesso a mesma ainda tiveram.
Programas de conscientização, que esclareçam a gravidade do tema, e o aumento do preço das tarifas de água de acordo com a renda per capita das províncias me parece mais razoável.

E de repente me ocorre a perspectiva surreal de me deparar daqui uns anos com um relatório do Banco Mundial que em ação conjunta com a Organização Mundial da Saúde incitariam em tom apelativo a mobilização do governo chinês para tratar dos problemas acarretados pelo aumento excessivo do índice de alcólatras no país, a maior incidência de casos de cirrose hepática, arritmias, trombose, síndrome amnética.
Em tom solene anunciariam campanha para reverter as sugerências propostas outrora frente ao aumento do preço da água. Pois não lhes era de conhecimento na ocasião que o *preço da cevada maltada mais famosa no território, a tsingtao, já era mais em conta que o da garrafa de água mineral.
O batismo da campanha seguiria os moldes tradicionais fazendo o uso da água, que nesta altura do campeonato seriam literalmente água santa.
"Por água abaixo!" gritariam autoridades e espectadores saudando e aplaudindo o nome e lema da então campanha.


***
::Programa de Orientação e Proteção ao Consumidor informa::

O preço praticado nos estabelecimentos comerciais chineses para os seguintes itens:

-Garrafa 600 ml cerveja tsingtao: 2,5rmb
-Garrafa 600 ml cerveja yanjing: 2,5 rmb
-Garrafa 300 ml água wahaha: 2,40 rmb
-Garrafa 300 ml água nestlé: 3,20rmb

*Obs: No ato de devolução do vasilhame das cervejas exija seus 0,5 rmb por unidade.

Wednesday, January 28, 2009

Plié, balancé, brisé - Ou o ballet contemporâneo das relações franco-chinesas


Ontem, apesar da ocasião, a celebração do 45º aniversário da reconciliação diplomática entre França e China (após o rompimento provocado pela Revolução Comunista de Mao Tsé-tung), não houve muita festa, nem motivos aparentes para brindes con Don Perignon.

Oui, oui, o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao em visita oficial por cinco países da Europa -a primeira após a crise diplomática com a França que concatenou o cancelamento da Cúpula União Europeia-China, não fará escala em Paris.
Por questões de ressentimentos e desaprovação em relação aos posicionamentos franceses.
São eles: as manifestações pró-Tibet durante a passagem da tocha olímpica pela França. O eventual boicote do presidente francês Sarkozy à cerimônia de abertura dos jogos olimpícos. E mais recentemente, pelo encontro realizado no início de dezembro entre Sarkozy e Dalai Lama, líder espiritual do Tibet- região autônoma chinesa que reivindica independência.

O balancé das relações bilaterais entre China e França, voltou ao plié e deve continuar assim flexionado até que Paris dê o primeiro passo de reaproximação, segundo declarações do ministro-adjunto de Relações Exteriores da China, Wu Hongbo.
Oficiais da chancelaria francesa tentam conciliar a situação sugerindo o diálogo entre as partes, sem causar qualquer reação em Pequim.

O ballet político contemporâneo das relações franco-chinesas, encantava pela harmonia dos movimentos. Que deram mostras da fragilidade da dança no segundo semestre de 2008 justamente em virtude dos três episódios traumáticos, que desencadearam por todo o território chinês manifestações ultra-nacionalistas e campanhas de apoio ao país com emblemas do gênero: I love China, ou o mais difundido 中国加油! ( Viva China!).
Os brios do nacionalismo ferido fomentaram ainda campanhas de boicotes aos produtos e marcas francesas.
Bernard Arnault, executivo da marca LVMH detentora entre outras do Carrefour e Louis Vuitton, declarou na ocasião a síntese entre o pensamento e a conduta a serem aplicados por aqui: "China needs time" ( China precisa de tempo).


O tempo para o tão esperado brisé, deve acontecer somente no dia 03 de abril, data a ser realizada a Cúpula do D-20, onde a reforma dos mecanismos de regulação do sistema financeiro internacional poderá ser aprovada.
O maior defensor da reforma, Nicolas Sarkozy, não será consultado.
Wen Jiabao, em visita a Davos na Suíça participará do Fórum Econômico Mundial, que em função das consequências globais da crise financeira poderá ser a edição mais importante da história do Fórum.
O premiê seguirá então para Alemanha, Espanha, Grã-Bretanha e Bélgica.
Enquanto o ballet bilateral permanece em plié.

***
Glossário do ballet::

Plié:: Literalmente joelhos flexionados.

Balancé:: Movimento de equilíbrio.

Brisé:: Saltos ou saltinhos no ar.

Monday, December 1, 2008

O mal do amor instantâneo

"Quando a palavra virar corpo
e o corpo abrir a boca
e disser a palavra
que o criou-
abraçarei esse corpo
e deitar-me-ei ao seu lado" ( Hezy Leskli,"Lição de hebraico número 5")


***
O mal do amor instantâneo para os chineses é incurável, é transmissível e eles ainda se apavoram e pouco sabem sobre como e porque se contraem.
É tão mau que pouco se falava a respeito. Até que o mal atingiu status de quase epidemia e tiveram que se fazer escutar.
Os números oficiais apontam 264,302 mil novos casos de contaminação, 78 mil pacientes que recebem tratamento e cerca de 700 mil pessoas infectadas, destas cerca de 400 mil desconhecem que são portadoras do HIV.

O foco publicitário este ano para combater o mal do amor, é tratar primeiro do preconceito.
O primeiro ministro chinês Wen Jiabao, tratou de visitar as Províncias mais afastadas, visitando hospitais e doentes em suas residências, proferindo discursos de igualdade, fraternidade e apóio. Os jornais, telejornais e internet disponibilizaram cada momento em muitos flashes.
Tudo para mobilizar a população, bastante numerosa, que pior do que o mal do amor, só mesmo o mau de amar, ou hostilizar.


E hoje, no dia mundial de prevenção contra a Aids, reuniram-se muitos deles em frente ao mais novo símbolo da capital, o Estádio do Ninho.
E mesmo que desde o ano passado o número de novas contaminações na China tenha abrandado sob a perspectiva das Nações Unidas, que cautelosa concentra esforços na rápida proliferação de novos casos de contaminação no leste europeu, ainda há muito ser feito por aqui.

Será uma longa marcha. E eu prefiro acreditar que nos próximos anos, ganhe outros ninhos.








*爱滋病- AIDS em chinês, traduzindo literalmente seria mal do amor instantâneo.
**Foto do topo: Wang Ningde