Tuesday, July 29, 2008

08 do 08 de 08 as 08:08:08 com 88!

Entrando no clima Olímpico afortunado em torno da superstição em relação ao número 8 e sua magia, também eu me rendo a este universo.

Já é de conhecimento que a data escolhida pelos chineses para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos foi o dia 08 do 08 de 2008, pontualmente as 20:08:08.
O motivo de tanto 8 está relacionado a crença de fortuna em torno do número em si, reforçado pelo fato de que em chinês o "ba" tanto pode ser o nome para o número 8 como a palavra fortuna, variando apenas o acento, mero detalhe para uma população bastante ligada as crenças desta espécie.

A questão sobre o 8 sempre me pareceu super charmosa e interessante, até semana passada. Quando para além disto, ganhou status cabalísticos a la Nostradamus.

Tudo por culpa da PriceWaterHouseCoopers, a consultoria norte-americana que realizou um estudo por economistas com as previsões de medalhas que cada país estaria propenso a ganhar nesta edição pequinesa das Olimpíadas.
O estudo analisou fatores como população, o rendimento "per capita", status de anfitrião e das medalhas obtidas em edições anteriores para definir o número que pode ser alcançado por cada país.

A China aparece em primeiro lugar, ultrapassando pela primeira vez a liderança dos Estados Unidos. Sendo apontada como o grande favorito à conquista do maior número de medalhas nos Jogos Olímpicos.Com supostas 88 medalhas!!

Será?

Ps: Apressadinha, quebro esse universo sobre o 8 publicando o post há exatos 9 dias ( aqui da China) para os Jogos Olímpicos.

Wednesday, July 2, 2008

Escravos de Jó, o Pistache, e o Biocombustível na China

















Nunca imaginei que meu dom para o *embromation musical para com as cantigas de infância pudesse me remeter aos pistaches ditos em chinês.
Pois sim, eu que sempre entendi que os *escravos de Jó, jogavam o caiximbó, ao invés do caxangá, tirei e coloquei umas vogais aonde não tinha dando espaço agora para o Kaixinguo (开心果), os pistaches.

E assim como os slogans mais grudentos que nos acompanham mesmo quando não são convidados, sempre que compro os pistaches não tenho como escapar da cantoria dos idos de criança.
Não me queixo, pelo contrário. Gosto imenso desse gostinho, o do pistache e o da infância.
Gosto ainda mais da poesia que o significado do pistache adquiriu em sua versão chinesa -kai( 开) = abrir ; Xin (心)= coração, centro, meio; Guo (果)= fruta.
E como nas instruções das palavras cruzadas, sempre juntas de sinônimos, o pistache aqui é para mim o ato de abrir o coração.


Como muita coisa deste lado da bolota, existe sempre muitos nomes para nominar uma coisa ou muitas coisas denominadas por um único nome.
Com o pistache não poderia ser diferente. Já que chinese pistache é também o nome de uma árvore bastante resistente, de cor alaranjada que desponta justamente na semana de encontro do G8 ( para tratar de questões concernentes ao aquecimento global) , como uma das alternativas para a questão do biocombustível na China.

E a China pragmática e com metas estabelecidas para pelo menos os próximos 5 anos em relação as políticas que conduzirão o país, não tem a mínima intenção de fazer parte da roda dos *escravos de Jó, especialmente quando o caxangá vira kaixinguo e corre o risco de ser confundido com o chinese pistache.



*Embromation= expressão que classifica o ato de embromar, criar, improvisar frente a situação, palavra e especialmente canção.

*Escravos de Jó trata-se de uma música infantil, segue a letra para os mais esquecidos ou não familiarizados:

"Escravos de Jó
Jogavam caxangá
Tira, põe
deixa o Zé Pereira ficar
Guerreiros com guerreiros
fazem zigue-zigue-zá
Guerreiros com guerreiros
fazem zigue-zigue-zá"


*Para maiores infos sobre o projeto do chinese pistache como alternativa de biocombustível : http://news.xinhuanet.com/english/2008-01/16/content_7433384.htm

Wednesday, November 7, 2007

Os ventos do norte não movem moinhos

"Jurei mentiras e sigo sozinho
Assumo os pecados
E os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos

Meu sangue latino
Minha alma cativa

Rompi tratados, trai os ritos
Quebrei a lança, lançei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar, vencido"
(Secos e Molhados)



Beijing, literalmente a capital do norte. A esta altura, e já enfrentamos o frio, e os ventos.
Uma ventania que leva e traz. Um ir e vir, que por vezes cessa.
Como uma viagem de metrô, levando e trazendo num eterno ir e vir.

E indo muito mais longe desde o dia 07 de outubro, com a inauguração da linha 5, a linha roxa.
Rompendo tratados, lançando-se no espaço, e já pouco importa se os ventos do norte não movem moinhos. Movem a cidade, numa velocidade assutadora, conectando muito mais do que apenas os pontos cardeais, promovendo a conurbação, essa mini versão da globalização.

A linha roxa é mesmo assim, 27,6 quilômetros quase sem fim. Tamanha a discrepância para com as linhas anteriores.
Possui, porta de vidro de segurança entre a plataforma e o trilho, monitores informando os minutos restantes para a chegada do próximo trem, música clássica ao fundo, e todos os funcionários com uniformes impecáveis e de luvas brancas desejando um bom dia.

Tudo resplandece, dos utilitários aos pedestres.
São mesmo os pedestres por quem me interesso, esses usuários vestidos de progresso que desfilam orgulhosos, admirando cada centímetro de novo trilho.
Fazendo jus a cada centavo do investimento de US$ 1,55 bilhão.
Se preocupam em fazer fila, na pose de espera, no bolso que vai a mão, em toda a ambientação.
Num melhor exemplo da influência do meio no ser.








Deixando automaticamente para trás, na primeira baldeação todo esse exemplo de civilização...
E lá se vão as filas, que se convertem num embate cultural corporal.
Resquícios antropológicos (sub)conscientes da teoria darwinista pela luta do mais forte.

Monta-se o ringue num contingente de 1 bilhão e 300 milhões de pessoas, e por mais que eu me irrite toda vez que participo involuntariamente destas manifestações de "vale-tudo" para entrar no vagão do trem, no elevador, no supermercado, ..., racionalmente mantenho o mantra zen da aceitação. Da consideração que esta luta que me afeta esporadicamente em situações medíocres, trata-se de uma constância, uma questão intríseca na existência de qualquer chinês. Que este empurra-empurra, em alguns casos já começa no ventre.
A luta pela sobrevivência por aqui é mesmo um espectro, se sobrepõe à sombra. Com consentimento ou sem quaquer tipo de sentimento, está lá o vulto da competição.

Volto ao metrô. Penso nas atuais 5 linhas, o contraste das épocas. As primeiras, construídas na décade de 60, ainda sob influência russa, o socialismo arquitêtonico-ideológico, o poder da doutrina. As atuais, concebidas no melhor estilo que o "um país, dois sistemas" pode oferecer, o poder do capital. As massas camponesas e as massas aristocráticas.

Volto ao metrô, e as massas, desta vez, as argamassas, as vigas.
E penso nas futuras 19 linhas(!) a serem (im)postas até 2020, sobrepostas em 561 quilômetros (!!). Superpostos, "super-posto" da então maior rede metroviária do mundo.

" E o que me resta é só um gemido".

Thursday, July 26, 2007

Propriedade Privada

No Brasil a gente cresce ouvindo que um dia vai ser dono do próprio nariz.

Aqui na China, apesar de recentemente aprovada a *lei de propriedade privada, o direito sobre ser dono do próprio nariz é intríseco.
Cada cidadão já nasce com a importância do nariz posta, digamos assim.
O assunto é tão sério que independentemente da idade, a consciência existe.

Está presente, na identificação enquanto indivíduo, em exemplos didáticos e até na gramática!

Isso tudo, porque para os chineses ( aliás japoneses, coreanos, tailandeses, indonésios - mas não estou segura sobre os demais orientais), a identificação entre um ocidental e um oriental é feita pelo nariz!
Sim, sim, trata-se de um dos meus maiores choques culturais em terras pequinesas. Destas revelações bombásticas que nos custa acreditar, salvo as proporções de tempo e espaço, a sensação foi bem próxima quando me contaram sobre o Sr. Coelho, a época de páscoa, mesmo doce, não foi mais a mesma.

A quebra deste paradigma classificatório, deixando de considerar os olhinhos puxados e em seu lugar ponderar o tamanho do nariz, foi responsável pela descoberta de fatos curiosos. Como a façanha que eles ( os orientais, ok os de nariz pequeno e baixo) possuem em relação a nós, uma visão 360° graus. Já que o osso alto que dá forma ao nariz situa-se abaixo da linha de visão. O ponto negativo, alguns se tornam levemente vesgos por conta da falta do " meridiano", e a maioria enfrenta problemas para sustentar os óculos.

Vantagens e desvantagens à parte, o fato é que quando indagados sobre algo que lhes concernem, tratam de levar o dedo indicador até a ponta do nariz ( como na foto), seguido de uma explanação qualquer sobre a primeira pessoa. Assim como faríamos nós no ocidente, apontando na região do tórax e dizendo "eu".

O nariz curiosamente utilizado de forma pejorativa no Brasil, à aqueles perdidos ( "Não sabe nem aonde está o nariz") aqui na China, em oposição, está presente nos conceitos gramaticais para ajudar na localização geográfica do interceptor para com o interlocutor.
Por exemplo, em chinês, costuma utilizar dois caracteres ou fonemas para designar, algo ou alguma coisa. Existe a necessidade da complementação, o que em português soaria redundante. Em chinês é o correcto, e muitas vezes causa certa confusão na hora destas construções, neste momento, o nariz entra! Para orientar!
Vamos ver na prática como fica isso:

过 ( guo - ir ) 去 ( qu - ir ) 来 ( lai - vir)
*válido lembrar que não existe conjugação de verbo, ou seja ir pode se transformar também em fui

Para situações onde você vai em direção a algum lugar e está indeciso, sobre como utilizar estas combinações que parecem na verdade ser o mais do mesmo, basta considerar a posição do nariz do interceptor. Ou seja se você caminha em direção ao nariz de alguém, utiliza-se a combinação 过来 para a situação inversa 过去。

Por estas e por outras, e mesmo com as brechas que a lei da propriedade privada não assegura, os chineses tem maior facilidade em analisar aonde meter o nariz.


* Para maiores informações sobre a lei da propriedade privada, aprovada na China em março de 2007 após quase 14 anos de discussões, e colocada em vigor a partir de outubro do mesmo ano consulte:

http://www.estado.com.br/editorias/2007/03/17/int-1.93.9.20070317.1.1.xml

Wednesday, July 18, 2007

Frango Xadrez




Sumeba miyako
Literalmente: Em se morando, capital.
Sentido: Independente do lugar que se more, você virá a amá-lo.
(provérbio japones)




Dou início a minha quarta-feira com o ritual das minhas "cotidianices" , óculos escuro, guarda-chuva, livro e vou. Vou atravessar a cidade de ponta a ponta nessa aventura multifacetada até o escritório.

Dado talvez pelas minhas "cotidianices" itinerantes sempre a me levar a tantos e tão diferentes lugares , ou quiçá pelo ato de encapada estar - guarda-chuva , óculos escuro- e assim me afastar, o fato é que nesta manhã, houve diferente dispertar.


Deixo as estepes da Mongólia , cenário deste livro que devoro, passo por Beijing - o ponto de encontro onde tudo culminou- chegando até EUA.


A prosa iniciada pelo chinês ao meu lado, é motivada por sua curiosidade em relação ao idioma do meu livro. Explico que é português.
E a partir daí, deu-se o "big bang", a explosão das muitas partículas de vidas simples que se converteram em espécies multi-celulares.


Em miúdos, escuto deste senhorzinho chinês de meia idade morador dos EUA há mais de oito anos, as vantagens que a terra do Tio Sam oferecem. Um relato bastante lúcido sobre direitos humanos, propriedade privada, leis laborais , férias pagas e os benefícios que ele desfruta acolá, que ainda transitam numa órbita bem distante por aqui.

Sua convicção pró-América do Norte é tamanha que me sinto instigada a vasculhar por sinais de nacionalismo chinês, orgulho da mãe pátria, ou saudades.
Encontro somente resquícios de saudades que ele revela ter. E saudades é algo que eu entendo bem!
Na expectativa de classificar ou no fundo me socializar com este alguém dotado de universo paralelo singular, reforço o que há tempos já havia registrado nos meus registros empíricos classificatórios. As saudades chinesas concentradas na comida. É tudo o que sempre computo. A comida!


Me vem à tona, experiência pueril das feiras de ciências do colégio. Numa das edições fomos incumbidas de apresentar o sistema gustativo. Desvendar as células epiteliais, sensoriais, os receptores. Me lembro bem, das áreas gustativas da língua, responsáveis cada qual pela percepcção dos diferentes sabores em determinados lugares da língua.


Me ocorre agora que um dos motivos pelo qual os chineses estão fortemente ligados à comida, possa ter alguma relação com a estimulação simultânea dos receptores gustativos.

E me explico: neste cardápio comum que oferece numa única refeição pratos agridoce, picante e salgado nesta festa ultra-censorial para qualquer língua, ativando os sentidos mais básicos responsável pela sensação única atrelada à comida.

Sigo até o escritório com sensação de certa superioridade, afinal minha saudade é deveras muito mais complexa e engloba zilhões de outros componentes que o senhorzinho sequer cogitou em mencionar, ou inclui-las em sua lista particular.

A questão me acompanha até aqui, e não contente faço o paralelo de elementos que eu sinto imensas saudades, e dos elementos que eu irei igualmente sentir saudades quando no Brasil estiver.
A relação poderia se converter num tratado, mas basicamente também eu concluo que sim, a comida deixará uma lacuna grande de saudade. E não somente ela, claro, mas as tantas paralelas atreladas à ela. Como o cheiro.

A China não tem um cheiro específico, não cheira grama, não cheira mar. No inverno por conta dos ventos que nos trazem os odores, a China cheira a construção. E durante o decorrer do ano, toda minha memória olfativa me remete à comida.

E a partir destas memórias olfativas de comida, construo todo o resto ao redor. Monto e desmonto cenários com a facilidade das peças do Lego.

E toda minha sensação de superioridade se dilui dando lugar a uma admiração estupenda ao senhorzinho pela perspicásia sintética trissílaba classificatória.

Eu ao contrário, incapaz de igual síntese, faria uso de uma infinidade de fonemas, para no fundo dizer o mesmo em um ato monossilábico, saudades!


“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver” ( Amir Klink)